Premio de ensayo en lengua portuguesa 2010 (Umass-Dartmouth)
O prólogo da Modernidade: a tradição implícita
Resumo
A Modernidade é um período altamente complexo de identificar. O adveniente sino duma consciência nova, capaz de se gerar a partir da sua própria pergunta, cresce passando por vários autores. Estes autores compreenderam o surgimento dessa consciência moderna que descansa sob o texto, como um ente histórico, onde o estabelecimento duma relação democrática entre autor e leitor, virá pôr em causa o conceito clássico de mimese. Vários deles escreveram prólogos aos seus leitores, advertindo-lhes do comportamento irreverente da obra. Desde Shakespeare até Fernando Pessoa, passando por Cervantes, Goethe, Almeida Garrett, Machado de Assis, este trabalho tem como objectivo observar os mecanismos que foram activados a partir do nascimento da consciência moderna através dos prólogos.
Introdução
As idéias de Harold Bloom num livro como The Anxiety of Influence estabelecem um referente teórico da organização ou classificação literária que instalam um cânone. Estas idéias, às vezes contrarias ao tom sublime que Bloom procura manter ao longo do livro, não escapam ao poder do acaso e ao polêmico poder de plágio dos autores. “Não se fazem tijolos sem palha” dizia Ezra Pound, isto é, o plágio na literatura e nas artes consiste na adopção e adaptação duma série de elementos existentes incorporados numa obra.
A dinâmica do plágio aparece para Bloom como uma angústia, mas uma angústia que contraditoriamente à equação do livro, virá instalar-se, não nos autores mas, nos leitores e nos críticos da obra. A influência é uma característica imanente ao ser humano. Somos influenciados desde o momento da nascença e da aquisição da linguagem. Em termos artísticos, a aprendizagem da tekné é um longo processo de imitatio. Há obras cuja presencia resulta essencial para a compreensão duma época ou duma tradição mas isto não significa que tais obras sejam produto dum génio que as produz como uma tabula rasa. Estas obras são para Bloom, no campo da poesia, o resultado de poetas fortes. Por conseguinte, os poetas débeis serão aqueles mais susceptíveis ao poder da influência. É importante notar que as idéias de Bloom estão constringidas por uma preocupação pessoal pela literatura em língua inglesa, esse motivo levá-lo-á a suster que Shakespeare é o maior poeta da humanidade e a expor que Dante só é importante para os poetas. Estas atribulações aparecem ao longo do texto, um texto cujo subtítulo é: uma teoria da poesia. A promessa da teoria fica suspensa devido aos vários casos apresentados que dão conta da erudição do autor mas que ao final não cumprem com o objectivo atingido. Paul de Man expõe no texto “Recensão de The Anxiety of Influence de Harold Bloom,” que o génio de Bloom atraiçoa o autor para apresentar objectivamente a matéria que mais conhece.
O mais notável gesto da angústia provem do mesmo Bloom ao tentar reactivar conceitos que vieram sido expostos anos antes nos escritos de Ezra Pound. Ao contrário de Bloom, Pound não estava interessado em legitimar um cânone mas em resgatar exemplos grandiosos de poesia esquecidos pela tradição. No livro ABC of Reading, Pound propõe um laboratório científico para comparar e estabelecer padrões de composição. Não resulta surpreendente saber que Bloom tem escrito livros como How to Read and Why reminiscente direito de How to Read, publicado por Pound em 1931, mas sem que o primeiro tenha dado nenhum credito ao segundo. A angústia de Bloom radica, não somente em utilizar as noções de Pound sem dá-lhe crédito, mas também sepultar o legado do questionamento e resgate dos nomes esquecidos pela tradição mediante o estabelecimento dum cânone legitimado pelo mercado.
O exemplo anterior é útil para aceder ao processo do conhecimento onde as ideias viajam e reelaboram-se através das épocas, das línguas, das geografias etc. Há quem afirme que a história da literatura é só uma mascara de Odisseu que se apresenta com diferentes nomes, pelo menos James Joyce o entendia deste modo. Mas não só o heróico Odisseu tem percorrido ou inseminado o imaginário literário, se pensarmos nas figuras do anti-herói que permeia a época moderna será preciso observar a lenda de Orfeu. A perca como premissa da criação instala-se como condição a priori da falência do ser humano na modernidade. Neste ponto será preciso entender a Modernidade como um período evolutivo que começa desde o Renascimento, o chamado Early Modern pelos ingleses, e cujo clímax será o Romantismo alemão.
Descer à esfera do moderno
A falência do homem moderno resulta do confronto material após da perca da noção do divino. Hamlet é o primeiro herói em desconfiar da justiça celestial. No conceito clássico da tragédia, o confronto entre o ser humano e a força do destino era necessário, dado que o destino estava conformado pela ordem universal incluindo os deuses. A dúvida de Hamlet consiste na vingança, isto é, a materialização duma acção que só tem uma justificação moral. O compromisso filosófico de esta peça aponta à crítica kantiana enquanto a pergunta dos actos constituírem o nível ético ou se existe uma ética que antecede aos actos. A loucura de Hamlet é só um assomo da esquizofrenia que sofre a humanidade na carência dos fundamentos essenciais da existência.